O Mendigo e o Júri – Para meus alunos amigos concurseiros.

Publicado em novembro 22, 2011

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O Mendigo e o Júri

Lembro-me que,
certa vez, fui nomeado pelo Procurador Geral para fazer um júri na Comarca x, no interior do Brasil.

Tinha que viajar
mais de três horas para chegar até a comarca do Júri. No trajeto, todo o
processo que eu tinha lido na noite anterior passava por minha mente:

Dois acusados tinham assassinado, sem
nenhuma justificativa aparente, uma pessoa que estava dormindo no banco de uma
praça.

Fato semelhante
tinha acontecido com um índio em Brasília.

Algo me
incomodava, os dois acusados já tinham sido absolvidos pelo Egrégio Tribunal do
Júri, o Promotor de Justiça que tinha feito o júri anterior tinha recorrido e o
Tribunal de Justiça tinha remetido os acusados a novo julgamento.

Ao ler o
processo, conclui claramente que estava diante de um homicídio sem a mínima
justificativa.

Os réus durante a instrução criminal tinham
confessado com frieza e riqueza de detalhes o crime e três testemunhas
relatavam que a vítima estava dormindo em um banco da praça quando, sem nenhum
motivo aparente, os acusados começaram a espancar a vítima até causar a sua
morte.

Antes de chegar
à pequena cidade eu indagava como foi possível esta absolvição?

Logo tive a resposta.

Quando cheguei
à cidade algo me chamou a atenção.

O plenário do
Júri estava lotado e eu pensei Em
uma sociedade que não se importa com suas vítimas, o plenário lotado significa
que os acusados devem ser pessoas importantes na sociedade.

Logo confirmei
a minha suspeita. Perguntei ao oficial de justiça:

Porque
o plenário está tão lotado?

E ele
respondeu:

Os dois acusados são filhos dos empresários X e Y, ou seja, estão todos
torcendo pela absolvição dos réus e como Promotor anterior, o senhor vai é
perder seu tempo.

E a vítima? Era
um pobre coitado, que dormia na rua.

Durante três
horas provei que os réus tinham cometido o dantesco crime, mas confesso, olhava
nos olhos dos jurados e notava que havia algo errado, eles não estavam em
consonância com minha tese.

A defesa apenas
desqualificou a vítima e atribuiu todas as qualidades do mundo aos autores do
bárbaro homicídio.

A defesa usou
apenas uma hora, e sem fazer a mínima análise do processo, requereu a
absolvição dos acusados por negativa de autoria, contou várias piadas e os
jurados riram em conjunto com a platéia.

Os réus cinicamente acompanhavam os risos
dos jurados.

Eu, que não
achava nada engraçado, fiquei pensando na minha solitária angústia.

Foi justamente assistindo a um Júri que eu
decidi que iria ser Promotor de Justiça, queria contribuir com a sociedade,
queria fazer justiça, queria mostrar
que a justiça poderia alcançar as classes mais favorecidas e cadeia não era só
para pobre. Agora eu estava sentindo na
pele o quando é difícil fazer justiça em uma sociedade em que a hipocrisia
contamina os corações.

Vários jovens
do plenário riam das piadas do advogado e esqueciam que um ser humano tinha
injustamente morrido. Em pouco tempo eu deveria ir à réplica, e estava com um
grave problema, já tinha usados todos argumentos jurídicos possíveis e mesmo
assim sentia que os jurados já estavam predeterminados a absolver os
assassinos.

O Juiz perguntou: V. Exª. Deseja ir à
réplica?

Eu senti que
não tinha mais como reverter aquela situação de injustiça, mas algo me
impulsionava e eu deveria continuar a luta.

Na réplica, quando comecei a falar, algo
excepcional aconteceu:

Um tumulto no
final da sala do Júri, eu parei de falar e fui até lá. Um Policial Militar
retirava um cidadão. Eu perguntei o que estava acontecendo?

O policial
respondeu: Dr. É esse mendigo que quer
entrar.

Era um negro
com as roupas rasgadas e sem dentes, antes que eu pudesse falar, ele disse.

? Seu doutor, me adesculpe, mas eu só
tenho essa roupa.

Perguntei se
ele queria entrar. ? Sim,
quero assistir o julgamento do meu compadre.

? E Quem é o
seu compadre?

? O que morreu.

Eu fiquei muito
emocionado, peguei na mão dele e disse venha você
é meu convidado.

Coloquei-o para
sentar na primeira fila e perguntei como era seu nome?

? Nêgo Véi.

? Não, quero
saber o nome de batismo.

Ele serenamente
disse: José.

Voltei para
tribuna e fiz a réplica em poucos minutos, pois estava com lágrimas nos olhos e
a voz travava. Fitei por alguns segundos todo o plenário que agora estava
silencioso, olhei para o mendigo e
disse:

? Seu
José, nas suas vestes tem mais dignidade do que na toga de alguns
jurados que em poucos instantes irão cometer uma grande injustiça, absolvendo
sem nenhum motivo plausível os matadores do seu amigo.

Antes todos
riam e não se importavam com o fato de que um ser humano tinha injustamente
morrido, agora eu sei, era um mendigo que a própria sociedade colocou em suas
margens obscuras.

Emociona-me o
fato do senhor ter vindo e eu quero contar uma parábola que eu dedico para
você:

Em plena
guerra um soldado disse ao seu superior: ?Meu
amigo não voltou do campo de batalha, senhor. Solicito permissão para ir
buscá-lo?.

?Permissão
negada?, replicou o oficial, ?não quero que arrisque a sua vida por um homem
que provavelmente está morto?.

O soldado,
ignorando a proibição, saiu e, uma hora mais tarde, regressou mortalmente
ferido, sangrando e agonizando em suas últimas forças trazia o cadáver de seu
amigo.

O oficial,
vendo aquela cena, furioso, gritou: ?IMBECIL!!! Já tinha te dito que ele estava
morto! Agora eu perdi dois homens!?. E continuou. ?Diga-me: Valeu a pena ir lá para trazer um
cadáver??.

E o
soldado, moribundo, morrendo, respondeu com suas últimas palavras: ?Cla..ro que s…sim, s..senhor! Quan..do o
en..con.. trei, ele ai..nda es..ta..va vi..vo e me di..sse: Eu tinha certeza
que você viria!?.

Hoje, seu
José, o seu amigo está em outra dimensão, mas orgulhoso de você, pois ele
também tinha certeza que você viria.

Talvez aqui nesse plenário não seja
realizada justiça, e os matadores do seu querido amigo podem ser absolvidos
novamente, mas eu quero que senhor nunca esqueça de uma coisa, se
algum dia você for surpreendido por uma injustiça, jamais deixe de acreditar na
verdade, na honestidade e na dignidade, e sempre enfeite sua vida cultivando
uma bela amizade, pois quem tem um bom amigo tem duas almas.

Duas lágrimas
brotaram nos olhos deseu José.

Parei e
respirei… percebi que o silêncio era atormentador.

Olhei, em fim,
para os jurados e apenas disse:

Eu apenas desejo que Vossas Excelências
façam justiça, votem conforme vossas consciências entendem que é justo, que é
verdadeiro, afinal, para que o mal prevaleça basta as pessoas de bem ficarem
omissas.

O Advogado
voltou para fazer a tréplica.

Desconcertado, tentou contar uma piada que
ninguém riu, disse que os réus eram inocentes, mas os jurados já não prestavam
atenção às suas palavras, pois a postura digna de seu José já tinha decidido o julgamento: quatro jurados votaram pela condenação e três pela absolvição.

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Espero
que você esteja estudando para concurso para concretizar um ideal.

Quanto
o ideal é material, por exemplo, ter um bom salário, ter carro, ter status, em um futuro bem próximo você pode
se tornar um profissional frustrado, pois
o prazer material é muito fútil.

Quanto
o ideal é espiritual, por exemplo, fazer justiça, fazer o bem, contribuir com
as classes hipossuficientes, ajudar as pessoas carentes, em um futuro bem próximo você vai perceber que não há dinheiro que pague
a sensação do prazer que é ajudar alguém a conquistar um sonho, a continuar na
luta, a resgatar a esperança que podemos fazer a diferença com nosso trabalho.

Fonte: http://www.euvoupassar.com.br/?go=artigos&a=mrZzlTTPFr6bj_1CG-dlZxHqd0kYD-PtUK44AAO4HH0~

 

“Os homens perdem a saúde para juntar dinheiro, depois perdem dinheiro para recuperar a saúde.
E por pensarem ansiosamente no futuro se esquecem do presente de forma que acabam por não viver nem o presente, nem o futuro.
E vivem como se nunca fossem morrer, e morrem como se nunca tivessem vivido…”
Dalai Lama

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